Exposição no Marco abre espaço para questões contemporâneas e clássicos desconhecidos do público de MS

Campo Grande (MS) – As obras de artistas consagrados mundialmente mas pouco conhecidos em Mato Grosso do Sul, como Roberto de Lamônica e Masahiko Fujita, e artistas de outros Estados que abordam por meio das artes visuais temas contemporâneos e contundentes, como Gervane de Paula (MT) e Lourival Cuquinha (PE), estão expostas no Museu de Arte Contemporânea de Mato Grosso do Sul (Marco) e abertas à visitação.

A abertura da 3ª Temporada de Exposições aconteceu nesta quarta-feira, 31 de outubro de 2018, às 19h30, com as mostras: Mundo Animal, com o artista Gervane de Paula (MT – Funarte); Transição de Fase, de Lourival Cuquinha (PE – Funarte); A simplicidade de saber viver e pintar a vida, de Masahiko Fujita (MS) e Cidadão do Mundo, de Roberto de Lamônica (MS).

Shirley Aparecida Rodrigues Fujita representou seu pai, Masahiko Fujita, falecido há três anos. Shirley é a única filha biológica do artista, que tem também uma filha de criação. Shirley cursa Direito e é dona de casa, mas herdou do pai o interesse pelas artes visuais, fazendo, como amadora, desenho, trabalhos em carvão, grafite e artesanato.

“Eu e meu pai sempre fomos muito ligados. Ele era muito metódico com todas as coisas que ele realizava. Não gostava de fazer uma obra de uma vez só, era detalhista, estudava muito para fazer uma obra. Deu aulas de desenho e pintura até três meses antes de falecer. Esta é a primeira exposição das obras dele ‘in memorian’ e me sinto especialmente honrada em representa-lo, por tudo que ele foi, que ele fez. Ele era muito querido, deixou saudades não só na família, mas entre muitos ex-alunos e amigos”.

As obras expostas de Roberto de Lamônica pertencem ao acervo do professor doutor Gilberto Luiz Alves. A ideia de reunir obras para montar um acervo do artista praticamente desconhecido em sua terra surgiu de Gilberto e da artista Angela Miracema.

“Há dois anos, conversando sobre a possibilidade de formar um conjunto da obra de Lamônica, a Angela se prontificou a frequentar leilões. Conseguimos adquirir de 12 a 14 obras, nem todas estão aqui na exposição. Este artista nascido em 1933 em Ponta Porã sempre viveu no exterior e é pouquíssimo conhecido em sua terra. Só houve uma exposição no século 21 do artista, que foi em Brasília, além desta aqui no Marco, que é a primeira dele em Mato Grosso do Sul”.

O artista cuiabano Gervane de Paula já havia participado anteriormente em uma exposição coletiva no Marco, mas com esta individual é a primeira vez. “Esta é uma exposição diferente. Eu tradicionalmente sou pintor, mas com o tempo meu trabalho foi ganhando novos suportes, novos materiais, como desenho, pintura, objetos, instalação e vídeo, pois o comportamento de arte que se faz hoje no mundo se utiliza de todas as linguagens”.

“Moro e vivo na região de Mato Grosso, não nos grandes centros, e faço uma arte que tem diálogo com a arte contemporânea que usa argumentos da mina região. Sou ‘’ouvido’ nacional e internacionalmente, falando do meu próprio quintal, enfrentando os conflitos que a arte impõe”.

A respeito de sua exposição ser proibida para menores de 18 anos, o artista explica: “São obras que têm a questão da sexualidade, mas não é pornográfica nem tem o propósito de agredir, o trabalho quer buscar refletir sobre o tempo que a gente está vivendo. As artes plásticas têm sofrido mais com esta censura”.

O pernambucano Lourival Cuquinha disse que sua exposição trata muito de trocas, de lugares de situações, neste momento em que os venezuelanos estão sendo expulsos do sul do país por uma mentalidade ufanista, nacionalista, em que pessoas são agredidas por serem diferentes. Precisamos começar a pensar melhor no que está acontecendo”.

Cuquinha deu sua opinião sobre a política de editais governamentais para artistas. “Quando um artista ganha um edital, ele não está mamando nas tetas do governo. Tem alguns trabalhos que não só para o mercado, é super necessário o edital e fomenta a cultura brasileira, pois têm obras que foram feitas para pensar sobre a situação social”.

Em sua exposição há o trabalho do Eloy, imigrante peruano que mora no Recife. “Comprei todo o material dele por 250 reais, depois imprimi uma foto dele de frente e de costas num painel de cédulas costuradas completando o valor de 250 reais. Também comprei o dia de trabalho do Alexis, que veio do Senegal e mora em São Paulo. Ele é ambulante e vende relógios, correntes, anéis. Comprei tudo por 1.500 reais e imprimi uma foto dele de frente e de costas numa chapa de prata que vale 1.500 reais. Moussa, da Costa do Marfim, mora em Paris e vende réplicas da Torre Eifel. Comprei tudo por 100 dólares e costurei este valor em cédulas e imprimi a foto dele nas cédulas. Fiz o mesmo a Maria Malaca, nigeriana que mora em Londres e vende turbantes. Meu objetivo é retratar o valor do dia de trabalho desses imigrantes”. Estas pessoas são consideradas sócias da obra do artista, que vai enviar a elas uma porcentagem do valor de cada obra vendida.

Cuquinha ficou impressionado com a estrutura do Marco e com o acolhimento dos servidores. “Este museu é uma estrutura em que as pessoas atendem com profissionalismo, é uma equipe muito carinhosa em que a maioria são mulheres, é outro tipo de sensibilidade”.

Na solenidade de abertura a coordenadora do Marco, Lúcia Mont Serrat, agradeceu a presença de todos e se desculpou pelo transtorno da mudança da data da exposição. “Mas estamos muito felizes por tê-los aqui hoje. Esta é uma temporada diferente por apresentar dois projetos do museu póstumos e outros dois premiados pela Funarte. Para que a visitação seja mais tranquila, vamos receber 15 pessoas de cada vez para melhor apreciação do espaço. Tem muita coisa para observar e apreciar. Agradeço a toda a nossa equipe, que se desdobra para manter todo o trabalho em dia. Gratidão, obrigada”.

O artista visual Humberto Espíndola lembrou a coincidência da data da abertura da exposição com um acontecimento importante para as artes plásticas sul-mato-grossenses. “Hoje é um dia muito especial. Há 52 anos, nesta mesma data, inauguramos a primeira exposição de artistas do então Mato Grosso, no Rádio Clube, que deu espaço aos nossos artistas. Depois, em 1976, foi aberto o Ateliê Livre, e o Gervane de Paula, que aqui se encontra, na época com 16 anos apareceu lá dando suas primeiras pinceladas. Esta também é a primeira exposição do Lamônica na terra dele. Sinto-me muito gratificado de ter sido um incentivador e hoje tenho a sorte de estar vivo para ver os frutos deste trabalho”.

Caciano Lima, gerente de Patrimônio Histórico e Cultural da Fundação de Cultura de MS, encerrou a cerimônia de abertura falando sobre o momento difícil em que a cultura se encontra no Estado. “Estamos passando por momentos difíceis, principalmente na cultura, mas é possível trabalhar. Temos um pequeno corpo técnico para dar conta de levar a memória da arte e da cultura sul-mato-grossenses. O ensino da arte nada seria se não fosse o trabalho de vocês. Em nome da equipe do Marco e professores de arte que aqui estão, agradeço. Somos resistência. Contem conosco. Obrigado”.

O Museu de Arte Contemporânea fica na Rua Antônio Maria Coelho, 6000 – Parque das Nações Indígenas. Fone: (67) 3326-7449. A entrada para 3ª Temporada de Exposições é franca. A exposição Mundo Animal, com o artista Gervane de Paula (MT – Funarte) é para maiores de 18 anos; as demais têm classificação livre.

Período de visitação: até 16 de dezembro de 2018

Horário de atendimento: de terça a sexta feira, das 7h30 às 17h30. Sábados, domingos e feriados das 14 às 18 horas. Escolas podem agendar visitas mediadas ao Museu por telefone. Informações também pelo site https://marcovirtual.wordpress.com/