Poeta marginal Ferréz discute literatura no desenvolvimento do senso crítico

Campo Grande (MS) – “A poesia marginal no Brasil não é igual à de nenhum lugar do mundo. Acredito na arte verdadeira. O povo tem que ter uma ferramenta para reivindicar. Se o sistema é a doença, a informação é a cura”. Com a sala Conceição Ferreira lotada, na noite desta sexta-feira (6), no Centro Cultural Octávio Guizzo, Ferréz expõe seus pontos de vista e sua história de vida, como chegou à literatura considerada marginal, durante palestra do Encontro do Proler (Programa Nacional de Incentivo à Leitura).

Ferréz, pseudônimo de Reginaldo Ferreira da Silva, é escritor, rapper, romancista, contista, poeta e empreendedor. É ligado à corrente considerada literatura marginal por ser desenvolvida na periferia das grandes cidades e tratar de temas relacionados a este universo. Marc desde pequeno reside no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, e sua obra falar do cotidiano das comunidades mais pobres, expressando uma forma de resistência.

A palestra no Centro Cultural foi mais um bate-papo, com a participação do público. Marc começou contando sua história e como chegou à literatura. “O meu sonho era trabalhar em escritório. Passei dois anos trabalhando numa lanchonete fritando hambúrguer e não ia pro caixa porque não tinha boa aparência. E não tenho até hoje [risos]. Depois fui trabalhar num arquivo e lá comecei a fazer poesias. Queria que as pessoas lessem minha poesia então escrevia nos banheiros da empresa. A dona descobriu e me chamou pra conversar. Faltei serviço vários dias daí o chefe ligou dizendo pra eu ir, se não ia ser demitido. Fui, e a chefe, uma alemã de 1m90 de altura, me disse se era eu que escrevia as poesias e que ela queria ler meu livro. Depois disso, a empresa patrocinou a publicação do meu livro”.

No dia 22 de novembro de 1997, na Biblioteca Kennedy, em Santo Amaro, Ferréz realiza sua primeira noite de autógrafos. “Comecei a vender meus livros na rua porque não desisto nunca. Passei em vários bairros vendendo, custava três reais. Nunca desisti de ser escritor. Pra que ler? Pra não desistirmos de nossos sonhos. A literatura me fez sentir medo, raiva, mas me deu esperança, me ensinou a ter senso crítico, me fez enxergar que a gente construiu esse país mas não usufruiu dele”.

Na época em que estava escrevendo “Capão Pecado”, foi publicada uma matéria no jornal Notícias Populares, que gerou outra publicação na Folha de S. Paulo sobre o livro. Depois veio participações em programas de TV, como o Programa do Jô, e surgiu uma editora para publicar o livro. “Esse livro mudou minha vida. Depois, de 2002 a 2007 fiquei escrevendo outros livros, que começaram a ser traduzidos pra fora [do país]. É onde a literatura te leva, a música, a arte. Não tem como dar errado se você acredita na arte. Você vai ganhar como ser humano. Onde eu chego eu tenho informação pra trocar. Não adianta ser superficial, tem que estudar. É amor pelo que faz”.

Instigado pelo professor Volmir Cardoso, da UEMS, que foi o mediador da palestra, Ferréz fala sobre o incidente de sua prisão por um conto que foi publicado na Folha de S. Paulo. “Um apresentador de TV conhecido fez um texto falando que teve seu relógio roubado. Algumas coisas no texto me deixaram chateado. A Folha de S. Paulo me ligou pedindo uma resposta ao texto para publicar. Eu não escrevi um texto em resposta, mas fiz um conto, uma ficção. Uma semana depois o Ministério Público emitiu um pedido de prisão por causa do texto. Fui preso, algemado, entrei no camburão, por apologia ao crime. A minha sorte foi que o delegado era leitor e na época os Nardoni estavam na mesma delegacia e o delegado estava incomodado com o assédio da imprensa. Daí decidiu me soltar. Fiquei fichado. Isso me prejudicou muito. Fui mandado embora do programa que fazia na TV Cultura, fui cortado da revista que eu trabalhava, entre outras coisas. Mas não mudei uma vírgula do texto porque a gente tem que falar o que pensa”.

Um participante no público perguntou o que o escritor pensava da mudança da terminologia de favela para comunidade. “Se mudasse o nome e deixasse tudo com cara de comunidade eu mudava. Mas não muda nada, só o nome. Eu falo ‘preto’, não negro. É desse jeito que a gente vai se identificar. O que ofende é o jeito que a pessoa fala. O estereótipo é o mesmo. É o rap que leva pro crime ou é a falta de boas escolas, de oportunidades? Você vê as letras de funk hoje e sente saudades do rap. Quando tem um filme sobre favela não é você que vai participar, é sempre a elite. Enquanto não formos donos dos meios de comunicação só vamos receber migalha. Precisamos ser donos da nossa história”.

Ferréz leu para a plateia um conto que fala sobre uma mulher buscando o Deus da igreja mas deixando de atender o filho que ela gerou, que pedia para a mãe fazer um ovo para ele. “Quando pessoas apreendem um quadro e o tiram de um museu, como aconteceu aqui, está se debatendo política e religião, e não arte. Arte não se debate desse jeito. Ainda mais num país que se diz laico, que tem mais negro que branco. Esse é o verdadeiro câncer que a gente tem no país. A religião dentro da política causa esse câncer. Tem que se tomar muito cuidado. É um debate para o qual as pessoas não estão se atentando. É falta de informação e ignorância. Quando se tira o censo crítico você não consegue questionar”.

O debate também se encaminhou sobre literatura como instrumento de poder e sobre os meios de comunicação. “A literatura causa muitas emoções, pena que as pessoas não têm acesso porque não é dado isso nas escolas. Se isso estivesse nas escolas, olha o empoderamento que isso dá. Mas do jeito que está, fica parecendo uma coisa longínqua, que não é feita pra você. Os meios de comunicação protegem o ponto de vista deles. Outros pontos de vista estão se tornando invisíveis. As pessoas estão deixando de comentar lançamento de livros, exposições. A gente está num país que está se inibindo. Quando a gente se cala a gente dá aval. É preciso ter o combate. A gente deixou o argumento do outro vencer. E a gente só reivindica com informação”.

Perguntado por um participante no público, Ferréz falou sobre o hip hop. “A cultura hip hop entrou na minha vida como se fosse um chamado pra guerra. No hip hop o cara sai do camarim, desde do palco pra trocar ideia com você na plateia. Ser escritor é tremendamente sozinho. Com o hip hop você socializa. Eu não tenho com quem trocar ideia sobre um livro na favela porque os ‘caras’ não leem. E então o hip hop me salvou da loucura”.

Graças a intervenções da plateia, Ferréz fala que gosta do contato com as pessoas quando vende seus livros e sobre a importância de aprender sempre. “Eu gosto da coisa suja, da coisa pequena. Não é pelo dinheiro, é pelo contato. Eu gosto do contato com o povo, de vender meus livros diretamente para as pessoas. Isso é vida, não é carreira, quando você acredita na coisa que você faz. Eu sou a prova viva, é difícil estar vivo quando você vive na favela. O seu corpo é o seu templo, você se entende como um universo. Eu não vou fazer nada errado porque o sistema está esperando isso de você. Você vale mais morto que vivo para eles. Procure meios alternativos para você aprender, pra mudar sua vida de verdade. Isso não é fácil, a felicidade é difícil de conquistar. Beba de outras fontes. Seja curioso. A curiosidade faz um homem e uma mulher melhor”.

Ferréz fez uma poesia de presente para o público, e a noite terminou com venda de livros e autógrafos. Noite que vai ficar na memória da coordenadora pedagógica Juliana Silva e dos seus alunos do 1º B noturno do Ensino Médio da Escola Estadual José Mamede de Aquino. A coordenação do Proler MS, na pessoa de Melly Senna, conseguiu com a Polícia Rodoviária Federal um ônibus para trazer os estudantes para o evento. “Uma coisa é você levar um evento para a escola, outra coisa é trazer meninos para dentro do teatro. Na escola eles estão dentro de uma bolha, com os pares. Aqui é um espaço democrático que aumenta o nível de cultura deles”, diz Juliana.

Ela acompanhou o interesse dos alunos durante o bate-papo com o autor. “Os alunos foram preparados para participar desta palestra, foram exibidos vídeos do Ferréz na escola e trabalhamos sobre os livros dele, com leitura. Eles são bem interessados, para nós é uma oportunidade fantástica. Eles ficaram rindo, se identificaram, isso trabalha muito a autoestima, que é algo de que precisam muito. O Ferréz falou numa linguagem que não precisei traduzir porque atingiu a todos. Isso é rico, é fantástico”.

O aluno Christoffe Souza Duarte, de 17 anos, disse gostar do autor porque ele é da favela, como Christoffe. “Estou pela primeira vez nesse teatro, aqui nessa palestra. Gostei do escritor, ele é da favela, eu sou também. Gostei daquilo que ele falou sobre ‘se for da favela é vagabundo’, que o pessoal vive falando, eu ouço muito isso”.

Fernanda de Oliveira Batista, de 16 anos, prestou atenção sobre a importância de estudar. “Gostei muito do que ele falou sobre os estudos. A gente deve cultivar a vida e não levar as maldades do mundo pra minha vida. Devo lutar pelo meu sonho. Na minha escola a gente briga demais sobre religião. Um dia o professor de Geografia escreveu no quadro a pergunta ‘o que é Deus’ e as pessoas começaram a falar. Ele não aceitava a opinião de ninguém. Acho que religião devia ser mais comentada na escola. Concordo com o palestrante quando diz que este é um assunto que precisa ser falado. Até me cultivou ler um livro dele, gostei muito”.

O Encontro do Proler continua neste sábado. Às 17 horas, na Morada dos Baís, haverá o Encontro com Escritores, trazendo a discussão “Por que os clássicos são clássicos?”. O palestrante é o poeta Érico Nogueira, bacharel em Filosofia e mestre e doutor em Letras Clássicas pela USP. O evento é aberto ao público e a entrada é franca.

Fotos: André Messias – FCMS