Araras, acolhimento, onça e faz de conta; público é protagonista no primeiro dia de desfiles das escolas de samba de Campo Grande

  • Publicado em 17 fev 2026 • por Karina Medeiros de Lima •

  • Pode entrar, o espetáculo é nosso. Colorido, alegre, sincopado e democrático, o Desfile das Escolas de Samba de Campo Grande deu início, na noite desta segunda de Carnaval (16 de fevereiro), a mais um capítulo de uma longa e dedicada tradição de beleza e entusiasmo. Cerca de 15 mil pessoas sambaram e se emocionaram na Praça do Papa com as agremiações Herdeiros do Samba, Igrejinha, Unidos da Vila Carvalho e Unidos do Bairro Cruzeiro, que destacaram ações sociais, política, meio ambiente e literatura infantil.

    Realizado pela Lienca (Liga das Entidades Carnavalescas de Campo Grande), com apoio do Governo do Estado, por meio da Setesc (Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura) e da FCMS (Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul) e também da Prefeitura Municipal, o espetáculo movimenta um enorme contingente: cerca de 2.500 pessoas se envolvem para fazer do desfile um show completo e contagiante.

    “Aqui tem amor, cultura e história. Aqui milhares de pessoas entregam sua paixão pelo Carnaval e pelo samba. Se entregam para a nossa cultura multifacetada. Essa festa celebra nossas tradições, é um espetáculo de confraternização e alegria”, explica Alan Catharinelli, atual presidente da Lienca.

    E nesta festa popular todos são bem vindos. Do abre alas ao recuo da bateria, o sambódromo de Campo Grande se abre e proporciona ao público contato direto com aqueles que brincam na avenida. De fato, a união é quem faz a força nesta celebração única. Campo Grande é a única capital do Centro-Oeste que conta com desfile de escolas de samba. E ele é assim: orgânico e coletivo. Partilhado e compartilhado.

    Aqui, o ritmo se entrelaça com histórias de vida, tradições e transformações culturais que atravessam gerações. O samba pulsa na avenida com a mesma humildade em que se constrói nas quadras das escolas, quintais, nos bairros e nas rodas.

    Wlauer Carvalho é mestre de bateria da Unidos da Vila Carvalho, uma das escolas mais tradicionais de Campo Grande. Cresceu dentro do samba. Foi literalmente criado dentro da avenida. “Sou nascido dentro da escola de samba. Acompanhei meu pai desde pequeno na luta para não deixar o samba morrer”, relembra. “Entrei na bateria aos 15 anos. Hoje, com 51, são 36 anos como mestre”. Para ele, uma bateria é muito mais do que o coração do desfile: é uma verdadeira sala de aula, um espaço de formação musical e humana.

    Natural de Salvador, Bahia, Andrea Ferreira esteve pela primeira vez frente a frente com escolas tradicionais de Campo Grande. “Me impressiona essa proximidade com o espetáculo. Isso empolga bastante. A gente faz parte deste movimento cultural”, avalia.

    Essa tradição de proximidade começou no fim da década de 1960. Seja na 14 de julho, na Afonso Pena, na Avenida Zahran e mais recentemente em seu palco mais iluminado, a Alfredo Scaff, na Praça do Papa, o desfile das escolas de samba renova nosso senso de pertencimento cultural. Uma liga que junta nossas plurais identidades. E todas elas cabem dentro e fora da pista do samba.

    Espetáculo de cores e ritmo

    Com o enredo “Acolhimento, carinho, interação, esperança, proteção. Aciesp é coração”, a Herdeiros do Samba abriu o desfile às 20 horas destacando o Instituto Aciesp, organização social de Campo Grande fundada em 2009 que dá suporte para projetos de inclusão a crianças, adolescentes, mulheres vítimas de violência e idosos em situação de vulnerabilidade. Por meio de capacitação e atividades culturais, busca acolher e proporcionar ambiente seguro a todos.

    Em seguida entrou na passarela a tradicional Igrejinha, escola de samba que homenageou a senadora Soraya Tronicke. De sua trajetória no interior ao Congresso, o desfile contou como a então desconhecida líder de um movimento político tornou-se a congressista de voz ativa, “a mulher que virou onça”.

    A mais antiga agremiação do samba da Capital, a Vila Carvalho ecoou o épico da Arara Azul no enredo “Um elo entre Pantanal e Amazônia, um chamado à vida”. O samba convida o público e todo o Brasil a ouvir o chamado das araras pela proteção deste corredor ambiental que hoje está em risco. Mas que é de suma importância para nossos ciclos naturais e sobrevivência. Mais que um canto vibrante, um chamado à ação.

    O mundo encantado das histórias infantis inspirou a Unidos do Bairro Cruzeiro – que fechou o desfile desta segunda – com o enredo “Emília com seu pó de pirlimpimpim nos leva ao reino encantado que me faz sonhar”. Com muito colorido e samba no pé, a escola convidou o público a ser criança no universo do Sítio do Pica Pau Amarelo. A boneca serelepe e arteira fez do faz de conta realidade e alegria.

    Serviço

    O desfile das escolas de samba de Campo Grande continua nesta terça-feira de Carnaval na Praça do Papa. A partir das 19 horas entram na avenida as agremiações Cinderela Tradição do José Abrão, Catedráticos do Samba e Deixa Falar. A entrada é gratuita.

    Texto: Marcio Breda

    Fotos: Samuel Rocha

    Categorias :

    Carnaval

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