Publicado em 23 out 2026 • por Karina Medeiros de Lima •
O Arquivo Público Estadual abriu na noite desta sexta-feira (23) a temporada expográfica “Muito Além do Acorde Final – ensaios e versos do hino sul-mato-grossense”. A exposição traz as letras, partituras e o memorial descritivo dos hinos de Mato Grosso do Sul que participaram do Concurso Nacional de Símbolos em 1978.
O coordenador do Arquivo Público Estadual, Douglas Alves da Silva, explicou que a busca do material para a exposição começou em 2024, com a repercussão da exposição Celeiros de Farturas. “Através dessa repercussão, nós tivemos muitas buscas de pesquisadores interessados em saber o que aconteceu, onde estava esse material que não foi aceito na época para a criação desses símbolos do nosso estado. Então a partir daí nós buscamos dentro do nosso acervo, em outros acervos, fizemos essa busca na massa documental que nós temos ali, e tivemos a grata surpresa de encontrar 91 trabalhos que haviam sido inscritos como hinos para o estado de Mato Grosso do Sul”.

A diretora de Memória e Patrimônio Cultural da FCMS, Melly Sena, disse todo o material da exposição, todos os hinos localizados pela equipe técnica do Arquivo foram digitalizados e estão à disposição da sociedade. “Esta é a primeira vez que, desde 1978, esse material, principalmente assim dos hinos que não foram selecionados, mas que compõem todo o imagético da história do nosso estado, ele é apresentado ao público. E depois de quase 50 anos, essas vozes voltam a ser ouvidas, e é assim que acontece às vésperas dos 50 anos do nosso estado de criação em 2027. Uma descoberta como essa não acontece por acaso. Ela é um resultado que se sustenta nesse tripé da salvaguarda, que é preservar, organizar e dar acesso. Por isso que a gente fala de guardar o documento, de catalogar o documento, de fazer esse inventário e dar o acesso ao público”.
Fábio Pereira do Vale Machado é neto de Hugo Pereira do Vale, um dos participantes do concurso que inscreveu a letra de um dos hinos. Ele veio representar o avô já falecido e relembrar a experiência. “Ele era médico, advogado, membro das Academias Mato-Grossense e Sul-Mato-Grossense de Letras e também autor de algumas obras. E, para nossa surpresa, ele também concorreu, tanto com a bandeira que nós temos na foto, no registro, esteve na expedição em Brasília, num avião que foi para lá dos divisionistas e deixou também essa contribuição. Grande acervo dele intelectual, é essa grande descoberta agora da letra que concorreu a condição de hino de Mato Grosso do Sul. Para mim, como membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, cuja minha formação foi toda no estado de Mato Grosso do Sul, como pesquisador, a gente sempre se encanta com as belezas culturais e intelectuais. E definitivamente o fato de ter descoberto mais uma pérola dentro do vasto acervo do meu avô foi de fato uma surpresa muito grande. E a gente celebra porque, independentemente da conquista ou da vitória, com a letra que ele concorreu, a intelectualidade ousadia que ele teve na época permitiu a concorrência. E esse material ficou 50 anos guardado e é uma alegria muito grande rever”.

Presente no evento, o padre Osmar Augusto Bezutte participou do concurso de hinos há quase 50 anos atrás com uma música, ele musicou a letra de Hugo Pereira do Vale. “Eu nem me lembrava que eu tinha participado. O Douglas que me localizou e aí me contou a história. Eu falei, nossa, está muito no passado, nem me lembro mais. Ele falou, pois é, o senhor tem um ino aqui, olha, na sexta-feira nós vamos fazer uma exposição. Estamos tentando contatar as pessoas, muitos já se foram por causa da idade, são 50 anos. Então eu fiquei surpreso, ele me mandou até a partitura, eu falei, nossa, que coisa. Eu tinha 30 anos, e estava começando o meu trabalho de composições também, porque eu tenho muita música para a nossa espiritualidade salesiana, Então apareceu essa oportunidade de participar do concurso do hino, e me deram uma letra que eu também não conhecia. O autor nem cheguei a conhecer, famoso, aí fiz o hino, mas não ganhei, né. Nossa, para mim foi um reviver, um reviver daquele momento forte de divisão que havia no Estado, a imprensa toda, então a gente acompanhava com avidez as notícias, televisão, jornais que falavam, as motivações da divisão, então a gente estava muito por dentro dessa questão, e depois veio o concurso do hino, foi interessante de poder participar desse acontecimento, foi ótimo”.

Os hinos que participaram do concurso não foram escolhidos, eles foram pré-selecionados, foram enviados sete hinos para a Funarte, na Comissão da Funarte que, infelizmente, acabou não escolhendo nenhum dos sete que foram encaminhados. E aí a Comissão da Funarte sugeriu que fosse feita uma encomenda desse hino para algum maestro de renome e quem acaba escrevendo a melodia foi o maestro Radamés Gnattali e a letra escrita pelos membros da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, Jorge Antônio Siufi e Otavio Gonçalves Gomes.
Fotos: Samuel Rocha