Primeiro espetáculo de vogue do estado é apresentado no Festival América do Sul

  • Publicado em 17 maio 2026 • por Daniel •

  • No último sábado (16), o espetáculo Peça Única, da House of Hands Up MS, foi apresentado no Anfiteatro do Centro de Convenções de Corumbá como parte da programação do Festival América do Sul (FAS) 2026.

    No palco, nove performers constroem uma coreografia que investiga os limites da beleza, da identidade e da afirmação a partir da cultura das ballrooms e da técnica de dança vogue. Dominado pelos tons de vermelho, preto e branco — tanto nos figurinos quanto na atmosfera visual da cena —, o espetáculo usa a moda como linguagem e a precariedade como estética e política, tensionando a ideia de obra acabada: aqui, a performance se faz no atrito, no improviso, no desbunde — e o público corumbaense foi tomado de surpresa pela potência da cena.

    Zuri de Oliveira Santos, produtora e membra da House of Hands Up MS, antecipou o que estava por vir. “A Hands Up é a primeira casa dedicada à cultura ballroom aqui no MS, e agora estamos circulando pelo palco giratório do Sesc com o primeiro espetáculo que envolve a cultura ballroom produzido aqui em Mato Grosso do Sul — de pessoas daqui para o Brasil todo. As pessoas podem esperar perder o fôlego, porque é um espetáculo eletrizante do começo ao fim”, disse, antes da apresentação.

    Roger Pacheco, mother da House of Hands Up MS e responsável pela coreografia e direção, explica a proposta. “É um trabalho bem diversificado porque é para todos os públicos. A gente vive em um estado muito preconceituoso ainda e, no meu ponto de vista, o preconceito se dá pela falta de acesso — criança nenhuma nasce preconceituosa. A partir do momento que a criança tem contato com uma arte que não é pesada, que não é sexualizada, sensualizada, que é algo bom e potente, esteticamente bonito, acho que isso desperta esse tipo de comportamento. Tanto é que o nosso espetáculo tem classificação livre”, contou. 

    Ele revelou ainda que o processo de concepção durou cerca de dois anos. “A gente só conseguiu realmente terminar quando recebemos uma data para estrear”, disse.

    A expectativa se confirmou nas reações do público — e as crianças foram as protagonistas da noite fora do palco. Espalhadas pela plateia e em frente ao palco, elas reproduziam os movimentos dos bailarinos em tempo real, dançando e se expressando com a mesma entrega de quem estava em cena. 

    A publicitária Emily Alves de Lima se emocionou com o que viu. “É de muita importância pessoas LGBT+ ocuparem diversos espaços, principalmente para naturalizar a nossa existência. Quando eu era criança, enquanto mulher lésbica, não tinha tanta referência assim. É muito importante as crianças crescerem naturalizando pessoas lésbicas, pessoas queers, não binárias, porque a gente existe, está aqui — e o espetáculo é uma celebração do que é a nossa comunidade”, disse.

    A engenheira de sistemas Amanda Rodrigues também destacou o impacto da apresentação. “Achei incrível, foi uma apresentação muito rica. É muito legal ver a cultura ballroom ocupando esses espaços de apresentação para a cultura à comunidade local”, celebrou.

    Peça Única é o primeiro espetáculo da House of Hands Up MS, coletivo sul-mato-grossense fundado em 2016, pioneiro na cena de vogue em Mato Grosso do Sul e voltado para a afirmação de identidades LGBTQIAPN+ por meio da arte, da dança e da performance. A obra parte de uma pergunta radical: como produzir vida em cunt? Ao tensionar os códigos da dança e da identidade, constrói uma beleza violenta, onde tentam sonhar o ordinário e demarcar suas existências. É uma coreografia de sobrevivência queer: anti-morte, anti-organização, anti-imagem — mas pró-desbunde, pró-vulnerabilidade, pró-expressão.

    texto Thais Pimenta

    Fotos Elias Campos

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    Festival América do Sul

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