Publicado em 16 maio 2026 • por Daniel •
A tarde deste sábado trouxe uma oportunidade de manter viva a tradição do cururu e siriri em Corumbá. Foi realizada uma vivência cururueira com os mestres desta arte na casa do mestre Sebastião de Souza Brandão, onde também está instalado um museu, durante o Festival América do Sul.
Douglas Alves da Silva, da equipe da Diretoria de Memória e Patrimônio Cultural da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, que organizou o evento desta tarde, explicou que a Vivência Cururueira é uma ação de salvaguarda da Viola de Coxo, que é um bem cultural que é registrado tanto pelo estado de Mato Grosso do Sul quanto pelo governo federal por meio do Iphan. Então nós buscamos trabalhar aqui com ações que vão levar a gente a dialogar com os detentores dos saberes, os mestres cururueiros, os familiares, os agentes culturais, o pessoal que trabalha também com o Siriri, por exemplo, que é um ritmo que é ligado à Viola de Coxo também, tudo que é ligado a esse universo da Viola de Coxo, para ver como que tá a situação do bem cultural”.
Douglas explica que para manter essa salvaguarda teria que ser feita a manutenção desse bem, a permanência desse bem, o que mudou, o que de certa forma pode ter se perdido com o tempo, o que se manteve com o tempo, como está a transmissão desses saberes para as gerações futuras. “Então com isso a gente acaba trabalhando com os mestres, que são aqueles que detêm esse conhecimento a ponto de saber tudo sobre isso e transmitir esse conhecimento para frente. Então o conhecimento tradicional continua sendo mantido e transmitido”.
O dançarino e coreógrafo de siriri Kleber Silva Costa tem a tradição na família, pois é neto do cururueiro João Deodoro da Silva, parceiro do senhor Agripino. “Nesse ano ele estaria completando 106 anos, ele era de 1920. Eu sou o quarto neto e eu tive esse privilégio também de dentro da dança, entrar com a ancestralidade, para dar a continuidade ao folclore. Hoje eu praticamente não toco, mas eu carrego a viola dele comigo, sempre o ganzá dele também, que ele que confeccionou, ele que me fez, meu avô, e aí como é uma herança de família, então tem que ficar, não tem que deixar no museu, não, por enquanto ainda a gente consegue para poder propagar e não deixar morrer, então a gente tem que, com todas as maneiras, a gente sempre está tentando resgatar e manter sempre viva essa tradição”.
Sua parceira na dança do siriri, Carmen Ligia Palhano Faria pratica a dança há 22 anos e hoje deixou a Psicologia para ser professora concursada de danças populares. “Como eu falo para as crianças quando a gente vai levar as oficinas, eu não venho de família, eu conheci através do projeto da oficina de dança. Eu me encantei e percorro onde tem. Eu acho que manter viva a tradição, a cultura, é manter a história do povo, que um povo sem memória, sem cultura, não tem nada, não existe pra mim. A oficina de dança é um projeto que está completando 27 anos, né, que tem aqui na cidade. De início eu comecei com projeção folclórica e lá eu tive a oportunidade de conhecer um pouquinho da cultura de cada cantinho do país e conhecer o Siriri, que até então eu não conhecia, e a partir daí é encanto à primeira vista você brinca, aprende as ladainhas, vai aprendendo com os mestres a movimentação, a participação. um projeto da prefeitura”.
O mestre cururueiro João Cristo de Moura é o mais velho ainda em atividade em Corumbá. Ele tem 88 anos e é mestre cururueiro já há vários anos, arte que vem de família, pois seu pai, tio e avô cantavam. “Nós morávamos na fazenda, né? E depois nós saímos para outra parte e voltamos e aí a gente entrou em Corumbá. Eu ia tocar o ganzá nas festas de São João, hoje não consigo mais tocar a viola de coxo, meu dedo já não dá mais, toco o ganzá. Eu acompanho o mestre Sebastião nas festas, em tudo quanto é lugar que vale a pena também”.
O Mestre Cururueiro Sebastião de Souza Brandão tem lutado pela transmissão do conhecimento e difusão das técnicas que aprendeu ainda criança. Nasceu em 21 de janeiro de 1944, na região do Castelo, localizada no Pantanal de Corumbá/MS. É filho do Seo Inácio e da Dona Cirene e mantém viva uma tradição familiar. O universo dos saberes relacionados ao fazer do Cururu – que congrega não apenas as rodas e cantorias, mas também o modo de fazer dos instrumentos, viola de cocho, granzá e mocho, utilizados nas tocadas de Cururu e Siriri, é o seu universo.
Possui reconhecimentos como Mestre da Cultura Popular (Ministério da Cultura: 2012 e 2019) e uma vida cheia de experiências com fazendas, ferrovia, prêmios, apresentações, filmes e muitas histórias para contar. “Eu sou viciado na nossa cultura, porque eu já nasci nesse berço dessa cultura, porque a minha família em peso, tanto do lado materno e paterno, todos tinham essa cultura, e é um legado que me deixaram que eu vivo feliz porque fiz muitas amizades, eu não era muito bem conhecido, tem muitos lugares que eu conto histórias de lá, talvez pessoas que já moraram lá nem lembram mais, mas eu lembro. Para mim, chegar aqui foi uma boa experiência de vida até agora”.
texto Karina Lima
Fotos Elias Campos








