Publicado em 17 maio 2026 • por Daniel •
Não há lugar melhor para o ribeirinho que a beira do rio e por isso o Festival América do Sul 2026 (FAS) reservou um dos seus palcos montados no Porto Geral de Corumbá para receber a visita de Lino, personagem do ator Salim Haqzan que representa o pantaneiro raiz ligado às tradições e à cultura oral presentes na maior planície alagada do mundo.
O pescador Lino chegou assim que o sol se pôs no céu de Corumbá e veio com seu penacho, artefato feito de folha de acurí muito usado entre os pantaneiros para espantar os mosquitos. Na matula de Lino, ainda tinha a viola de cocho e o ganzá, instrumentos musicais legitimamente pantaneiros.
Longe de um monólogo, a atração teve a interação do público presente no Teatro de Arena pois, segundo o ator que dá vida a Lino, o momento é de contar e perpetuar histórias que, muitas vezes, fica restrita às comunidades longínquas no vasto território do bioma.
“Uma das minhas paixões é contar histórias e eu gosto de viajar muito por causa disso. Viagens por aqui, por dentro também, né? Eu andei entrevistando vários pantaneiros, eu tenho alguns vídeos no YouTube onde compartilho as histórias contadas por eles”, explicou Haqzan.
“É a paixão pela tradição oral, pelo sotaque e essa forma de contar histórias encantando pessoas de qualquer idade. Tem todas as técnicas do ator, mas é uma memória, é uma contação mesmo. Eu acho que é mais história contada, assim, para o público do que atuação teatral”, definiu Salim que trouxe para o plateia do FAS histórias como a do Minhocão, ser mítico que protege as águas, mas que também causa pavor em muitos, pois leva pescadores desavisados para além do mundo real, envoltos em seus encantamentos.
Alejandro estava na plateia e foi convidado por Lino para tocar ganzá enquanto ele apresentava, com sua viola de cocho, algumas das trovas mais famosas de siriri, entre elas, Marrequinha da Lagoa. Entre palmas, o público acompanhou as canções antes de ser brindado com um dos poemas de Manoel de Barros declamado pelo personagem.

“Eu sou pantaneira então conheci várias histórias que ele contou, mas não conhecia o Lino. É muito legal ver coisa nossa no palco. Parei aqui porque meu neto gosta de teatro e acabei me encantando”, disse Arlene Silva de Arruda, avó de Alejandro que interagiu no palco com o personagem.
A apresentação misturou narrativa, música tradicional e poesia, convidando o público a mergulhar no imaginário pantaneiro. Lendas, contos, causos e mitos que atravessam gerações e são matéria-prima para Lino que segue com suas andanças em palcos do Estado.
texto Lívia Gaertner
fotos Elias Campos


